Polónia | Um bárbaro ultra-fanatismo

Memórias de uma febre de emoções,

Varsóvia,
Fev
ereiro 2012

As nuvens ocupavam uma proporção cada vez maior do já acinzentado dia e o mês de Fevereiro, o mesmo que congela as águas do Vístula, levava a Varsóvia as gélidas brisas da Europa continental. Um branco manto cobria as recentes avenidas da capital, mas os seus habitantes recusavam a ceder à habitual e “tranquila” descida dos termómetros.

Esta era a primeira viagem de Migs com o propósito de acompanhar um jogo do Sporting Clube de Portugal. As emoções estavam à “flor da pele”, embora nos tempos mais recentes, a sua equipa tenha passado pelas “ruas da amargura”. O treinador, Ricardo Sá Pinto, estrear-se-ia ao comando da equipa nesse mesmo jogo e trazia consigo determinação, a mesma que, eventualmente, carregaria às suas custas, o clube às últimas quatro equipas em competição.

Por seu turno, o temor girava em torno do ambiente que proviria das bancadas. A base de fãs do clube local, o Legia Warszawa, era particularmente conhecida pelo fanatismo e violência que incutiam no espírito do desporto. Todavia, no final de tarde daquela quinta-feira, o entusiasmo sobrepunha-se ao perigo que poderia, ou não, ser iminente. De frente para o Palácio da Cultura e Ciência, o ex-libris da cidade e um dos marcos da influência soviética e Estalinista na Polónia, aproximava-se a hora de apanhar o primeiro táxi, rumo à Pepsi Arena. Foi nesse momento que, imediatamente, se aperceberam do que estaria por vir. Parava o primeiro táxi, abria-se o vidro dianteiro, o condutor auscultava o destino e recusava o serviço peremptoriamente. Escassos minutos após a primeira recusa, repetia-se o cenário. Não podiam, sequer, acusar falta de entendimento. O destino era bastante perceptível. O bilhete estava na mão. «Afinal, para que filme de terror nos dirigimos?», questionavam-se.

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O Palácio da Cultura e Ciência, um dos ex-libris de Varsóvia

Aproximou-se um senhor. Trabalhava num dos diversos hotéis da praça. Fez sinal a um táxi, falou, em polaco, com o motorista e encaminhou-os rumo ao estádio. Quinze minutos a percorrer as grandes avenidas de Varsóvia foram suficientes para desembarcarem na enchente verde e branca – ambos os clubes têm estas cores associadas aos seus símbolos. O pagamento, efectuado em modo supersónico, era, somente, outro indício de que algo inimaginável poderia estar por vir.

No instante em que fechavam as portas do veículo, encontravam-se rodeados por milhares de adeptos, num contexto de euforia, própria antes de um jogo para uma prova europeia. O verde e o branco cobria-lhes o campo de visão, mas facilmente se apercebiam, que haviam “desembarcado” do lado oposto ao pretendido. Ríspidas vozes entoavam «Legia Warszawa, Legia Warszawa», em jeito de aquecimento para os noventa minutos seguintes. Encostados ao gradeamento, que bloqueava a estrada naquele momento, dois agentes da polícia demonstravam-se perplexos ao entenderem que o grupo de Migs não era um simples grupo de apoio à equipa da casa. Em poucos segundos, formavam uma fila, um à frente, outro atrás e, pelo meio, os três sportinguistas finalmente encontravam o caminho desejado até às bancadas. Lotação esgotada, assentos cobertos de neve, pelo ar pairavam quinze graus abaixo de zero e a bola, finalmente, rolava no relvado.

Migs ainda esfregava as mãos, numa súbita tentativa de se aquecer, quando quase trinta mil espectadores estremeciam as bancadas, aos saltos e entoando o mesmo cântico que havia ouvido meros minutos antes, no exterior. A loucura apoderara-se da legião de fãs polacos. Simultaneamente, iniciavam um ritual que se perpetuaria enquanto a bola rolasse: atirar bolas de neve aos adeptos adversários. E assim seria. Os noventa minutos tornar-se-iam penosos, não só em virtude do resultado, mas, substancialmente, pelas gélidas demonstrações de desportivismo do lado de lá do gradeamento.

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A bancada da Pepsi Arena destinada às claques do Legia Warszawa

Ao intervalo o placard mostrava 1-0 para a equipa local, os termómetros desciam aos quinze graus abaixo de zero e a “chuva” de neve mantinha-se intacta. Foi, precisamente nos primeiros segundos da segunda metade, que um grupo de adeptos polacos, disfarçados de sportinguistas, passavam despercebidos à segurança. Em silêncio, fundiam-se pelas filas reservadas aos adeptos portugueses que, maioritariamente, eram afiliados às claques oficiais de apoio ao clube. Os cânticos chegavam ao relvado e a equipa motivava-se, numa busca incessante do golo. Contudo, as duas “novidades”, silenciadas, levantavam as primeiras suspeitas no seio dos líderes da claque que, por seu turno, lhes dirigiam os primeiros insultos em tom meio-agressivo, meio-jocoso. Antes que o ambiente, nitidamente propício a um envolvimento caloroso entre adeptos, piorasse, as forças de segurança intermediavam a pronta saída dos intrusos.

A atmosfera envolvente tornava-se calorosa, à medida que os minutos se esgotavam no cronómetro. Das bancadas erguia-se um enorme muro, que em uníssono e cuidadosamente coreografado, injectava a adrenalina que o jogo necessitava naqueles últimos suspiros. Ao apito final, após noventa minutos disputados e quatro golos repartidos em igual número pelas equipas, os sentimentos de alegria, contentamento, condescendência e alguma frustração fundiam-se pelas bancadas e eram transportados entre rostos, etnias e cores clubísticas. Naquele momento, nada indiciava o que as horas seguintes reservavam.

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Pepsi Arena após o jogo terminar

Migs saía do estádio, numa coluna de segurança fortemente policiada, não porque se temesse uma reacção violenta e distúrbios causados pelos sportinguistas, mas porque o cruzamento entre duas avenidas que circundavam a Pepsi Arena havia sido bloqueado pela legião de fanáticos do Legia Warszawa. O trânsito estava cortado por “ordens” alheias à Polícia local e eram as tochas que se acendiam e os petardos que se faziam ouvir que ditavam a lei da selva. Inocentemente, nem Migs nem quem o acompanhava sabiam, de antemão, que este cenário era recorrente. Aliás, ao chegarem a Varsóvia, tomaram conhecimento que um grupo de adeptos polacos havia invadido uma mão cheia de hotéis, no centro da cidade, com o único objectivo de atrair confusão com os portugueses que já aguardavam a data do jogo.

Por medo, respeito e civismo, as meras dezenas, porventura centena, de sportinguistas davam uma lição de fair-play e desportivismo, apesar do resultado menos conseguido,  cingindo-se às ordens das autoridades e mantendo uma aparente calma que trespassava, ainda que lentamente, para os seus “opositores”. Sem solução simples à vista, as forças policiais estabeleciam que a situação só se resolveria com uma rápida e eficiente evacuação dos adeptos portugueses. Conseguindo “abrir caminho” até à primeira estrada que intersectasse a avenida onde se encontravam Migs e os demais sportinguistas, encaminhavam todos os táxis vagos para, sem critérios mínimos de segurança, os “empacotarem” nos veículos rumo ao centro da cidade.

Naquele final de dia, que havia sido exemplar da antítese dos valores do desporto, os termómetros não baixavam dos quinze graus negativos, mas eram as correntes de ar, que à porta do hotel confluíam, que os faziam reconsiderar que, apesar de tudo, a experiência haveria, um dia, de ser descrita de impagável.

M I G S

Informações Práticas relacionadas com esta história

  • O encontro entre o Legia Warszawa e o Sporting Clube de Portugal ocorreu no dia 16 de Fevereiro de 2012, a contar para os 16 avos de final da Liga Europa 2011/12, tendo terminado empatado 2-2, com os golos do Sporting Clube de Portugal a serem marcados por Daniel Carriço e André Santos. Para mais dados específicos sobre o jogo, consulta o seguinte link:
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