Egipto | As boleias de Mohammad pelos segredos do Cairo (Parte I)

Memórias da Cidade dos Mortos,

Cairo,
Março 2018

Mohammad, apenas mais um dos muitos habitantes da capital egípcia, esperava, em frente à Cidadela de Saladino, que a sua sorte chegasse, que é como quem diz, talvez aparecessem uns estrangeiros, com ar de perdidos, a precisar de uma boleia até à outra ponta do Cairo.

Por seu turno, Migs, já em ritmo contra-relógio, via o sol a começar a descer e embrenhar-se pelas labirínticas ruelas do Cairo islâmico. A névoa que sobrevoava toda a caótica metrópole concebia, àquela tarde, uma caricata tonalidade alaranjada, que misturada com as poeiras provenientes do vizinho deserto, criavam uma atmosfera mística e surpreendente.

Cairo visto da Cidadela

Vista para a cidade do Cairo, nomeadamente o bairro do Cairo islâmico em primeiro plano, desde a Cidadela de Saladino

Embora a vista deslumbrante para a cidade tomasse as rédeas do olhar, nas imediações, a imponência e opulência da mesquita de Muhammad Ali reunia os fiéis que, à vez, dirigiam preces e orações a Alá, já após a asr¹, mas ainda antes da chamada para a maghrib². O pensamento sussurava-lhe ordens de marcha, o itinerário desenhado para o dia estava incompleto e era o tempo que começava a pautar os passos cada vez mais largos, na esperança de ainda se envolver intensamente com a oferta exclusiva do Cairo.

Mesquita Muhammad Ali

A imponente mesquita Muhammad Ali

A saída obrigava a um último momento contemplativo da Cidadela. Pelas brechas que se abriam entre os incontáveis vendedores de rua, o semblante mais arabesco de Migs permitia-lhe integrar-se e não ser abordado, ao passo que quem o acompanha não se revê na mesma sorte. As pernas trabalhavam continuamente, à torreira da devida temperatura, desde as primeiras horas da manhã, os segundos escasseavam e a experiência reclamava autenticidade e aventura. Chegara a hora de sentir o fervilhar do trânsito do Cairo.

Lá estava Mohammad, encostado à sua carripana e de tagarelice com os seus compatriotas, fixando-se nos potenciais clientes. A selecção não seria difícil, não porque os viajantes estrangeiros estivessem presentes massivamente, mas porque a qualquer um se trocariam as voltas, acabando por receber qualquer quantia extra. Calhou a sorte a Migs. O acordo, selado aos primeiros segundos de negociação, era simples: Mohammad levá-los-ia até ao bairro Copta do Cairo por 60 EGP (≈ 3€). Rapidamente, Migs apercebia-se que não estava a entrar num táxi. À medida que se aproximavam do veículo, a matrícula tirava-lhe qualquer dúvida que restasse. De acordo com a lei egípcia, os veículos de serviços de transporte de passageiros são obrigados a envergar uma matrícula cor de laranja, ao invés da azul do ferro-velho que se apresentava, pelo menos, com quatro rodas.

Contra todos os avisos de sites governamentais, contra todas as “regras” de segurança, embarcavam, à boleia3 de um empático egípcio, até há pouco desconhecido. Sabiam que o bairro Copta era o destino, contudo, dada a maior facilidade de mobilidade de que dispunham, pediam a Mohammad que os levasse a um dos grandes segredos do Cairo. São autênticas cidades, de dimensões anormais, feitas de jazigos e memórias dos que partiram para dar abrigo às famílias. São cemitérios, onde há mais vida do que morte, alegria pelo simbolismo das coisas pequenas do mundo, porventura insignificantes para tantos outros, e sempre pautadas pela pacatez no quotidiano. Os moradores acenam aos incrédulos visitantes, exibindo os sorrisos, com os quais batalham por mais um dia. Entravam na “Cidade dos Mortos”.

Param.

Em redor, avenidas de suposta tristeza, dor e sofrimento, em frente o ritmo dos que se habituaram a viver ali. Curiosamente, é a morte que lhes dá um tecto quando chove, um lar para reunir a família e uma morada. É a morte que os mantém agarrados à vida.

Cemitério

Uma das entradas para a “Cidade dos Mortos”

Numa esquina convivem cinco homens. Falam em árabe, tornando a conversa imperceptível para Migs. Pelo tom amigável e descontraído, a relevância seria tanta quanto a que lhe quisessem dar. Um bocejava, outro ria, outro olhava para a lente que o capturava. «Salaam Aleikum!»4 Adiante, reunia-se uma família, naquele final de tarde, à porta de casa. A bandeira egípcia era o mote decorativo do seu jazigo personalizado. «Salaam Aleikum!» 

O sentimento geral acolhedor era irrefutável. Mohammad parava, explicava-lhes, interagia, mostrava-lhes e, sobretudo, integrava-os. Abria-lhes a porta da cidade mais improvável do mundo, onde um milhão de egípcios vivem, diariamente, e vários, há longos e intermináveis anos.

Família Cemitério

Uma simpática família acenando à porta de casa

As provas, de que o Cairo tinha muito para descobrir pelas suas entrelinhas, estavam dadas. Estavam, afinal, mais visíveis do que pensara. O enorme cemitério ficava cada vez mais longe, patente no espelho retrovisor da lata vermelha que incorria em diversas contra-ordenações rodoviárias, pelas estradas ofegantes da maior capital africana.

As memórias ficavam na lente, da máquina e dos olhos. Certamente, jamais aqueles minutos se evaporarão, como se de nada de significativo se tratasse. Pelo contrário, Migs relembrava-os, no caminho até à paragem seguinte. Eram os sorrisos, os olhares, os cheiros, as cores e a alegria que se sobrepunham à antítese do local onde habitam. Seguindo o ritmo do sol, que balançando na linha do horizonte ainda iluminava o dia, passava uma fila de carrinhas, cobertas de pessoas eufóricas, celebrando um dia marcante para os que comandavam a parada.

Continua na parte II, que pode ser lida aqui.

M I G S

1. Asr é a terceira oração do ritual diário da religião islâmica – as cinco orações diárias – correspondendo à oração da tarde;
2. Maghrib é a quarta oração do ritual diário da religião islâmica – as cinco orações diárias – correspondendo à oração efectuada imediatamente após o pôr-do-sol;
3. Os primeiros contactos, em viagem, de Migs com o fenómeno da boleia foram em Cuba. Ao clicares aqui, podes ler essa história;
4. Salaam Aleikum é uma forma de saudação em árabe;

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12 thoughts on “Egipto | As boleias de Mohammad pelos segredos do Cairo (Parte I)

    • Miguel A. Gonçalves diz:

      Obrigado pelo comentário e pelo elogio, Nuno! O Cairo é uma cidade com estes tons alaranjados por natureza, muito por causa dos edíficios e do deserto que, de vez em quando, lá manda umas areias para a cidade! Abraço!

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  1. Irina Marques diz:

    Se alguma vez me lembro, de ter começado a sonhar em viajar, foi exactamente com o Egipto. Entretanto, quando comecei, a primeira viagem foi à Turquia, entre outros sitios… e o Egipto, foi ficando para trás. Ao ler o teu post, fez-me relembrar essa vontade, novamente.
    Parabéns, o post está incrível, espero continuação.

    Liked by 1 person

    • Miguel A. Gonçalves diz:

      Curiosamente, o Egipto nunca tinha feito parte dos meus locais de eleição. Por isso, ao ter ido sem grandes expectativas, regressei com uma admiração imensa pelos sítios, pelas pessoas e pelo belo caos do Cairo! A continuação está já nos detalhes finais 🙂

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