Albânia | A guardiã de Llogara

Memórias do sorriso fraterno,

Llogara National Park,
Agosto 2018

Receber estranhos é uma arte. A sua perfeição exige tempo, vontade, genuinidade e generosidade. Não é, porventura, algo que conste nas mais imediatas ideias preconcebidas de certos locais, nos quais a Albânia, certamente, se impunha – em teoria. Por isso, as estórias que mudaram olhares, persistiam na mente de Migs, no voo de regresso a casa.

Era Agosto e o cenário não poderia ser mais idílico: o Parque Nacional de Llogara, na região centro da Albânia. Rodeado pelas montanhas, que, do alto dos seus mais de dois mil metros, separavam o turquesa do Adriático dos antigos tesouros dos Balcãs, Migs persistia na fuga à tempestade veranil e estival, que, ainda longe e aliada aos ventos esporádicos, ia rugindo a passos largos.

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Vista para o mar Adriático, desde um dos muitos miradouros ao longo do Pq. Nacional de Llogara

No decurso do trajecto, de regresso a Tirana, o tempo permitia fazer uma retrospectiva da semana de descoberta e exploração de um novo destino, país e cultura. Sobressaía o afastamento do povo, do que pensavam, do que faziam e da sua interacção com os outros. Pareciam-lhe distantes, ainda marcados pelo afastamento político de duradouras, mas finitas, décadas. Os olhos iam fintando os declives verdejantes de Llogara, mais atentos ao que lhe escapara: albaneses e albanesas, a alma da nação, a vida do país.

Quanto mais procurasse, mais as paisagens estonteantes encobriam o seu campo de visão e apenas a cada par de quilómetros surgia um carro, lento, deslumbrado com a envolvente e geralmente de matrícula grega ou italiana, abundantemente presentes em todo o território. Ao fundo da descida, um pequeno vilarejo, de telhas alaranjadas, tingia o cenário. Finalmente, o ponto para parar. Olhar. Analisar. Compreender.

Abrandava o ritmo, enquanto o pé desacelerava a pressa de regressar a Tirana. Pelos vidros entreabertos, corriam os ares frescos da montanha, que dirigiam os olhares na sua direcção. Do mesmo lado da estrada, meia asfaltada, uns metros adiante, caminhava a guardiã de Llogara. A única pessoa que se avistava. A pé, não obstante a avançada idade. Era a oportunidade que Migs buscava, desde que deixara Dhërmi para trás.

As vestes negras e escuras, que no seio do clima incerto das montanhas absorviam as ligeiras ondas de calor, espelhavam o retrato do Portugal de outrora e faziam-no reviver as histórias que ouvira dos pais e avós, da terra e da aldeia. Parava o carro.

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A guardiã de Llogara, numa das várias poses para as fotografias

Saía.

Máquina ao pescoço. Tirava a tampa que cobria a lente. Apontava.

“A reacção seguinte seria, nada mais nada menos, que o registo da disponibilidade deste povo”, pensava Migs nesse momento. Não havia pedido permissão e, por esta razão, a expectativa e ansiedade do que se seguiria era, naturalmente, oportuna. Ao primeiro disparo, o primeiro sorriso. Segundo, terceiro, quarto. A longa distância que havia percorrido até à porta do cemitério, onde se encontravam, não a havia desgastado. Recebia-o, com um fraterno sorriso, no interior do seu quotidiano. Eram a devoção, a saudade, a obrigação e a amizade que a levavam pelo árduo trilho da montanha. Eram caminhos incertos de rumo e destino definidos.

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No topo do Parque Nacional de Llogara

O véu preto desvanecia-se nas sombras dos cedros e os portões, que fechava, guardavam as histórias dos que ali eram recordados. Era como se já soubesse que um dia, também ali guardaria a montanha, mas que enquanto vivesse, era a responsável de perpetuar a memória dos que, a Llogara, chamavam de casa.

M I G S

Outras Informações relacionadas com a história

  • O Parque Nacional de Llogara situa-se perto do litoral na região centro-sul da Albânia, antecedendo toda a riviera albanesa. A maior cidade da zona é Vlorë.
  • Para conhecer a Albânia, o aluguer de carro é essencial, dadas as, ainda, fracas infraestruturas de transportes públicos no país. A generalidade das estradas está em boas condições, embora alguns troços não estejam em bom estado. Por estas razões, percorrer certas distâncias pode ser mais demorado do que o expectável.
  • Quanto à senhora em causa nesta história, não foi possível estabelecer um contacto mais próximo, dadas as barreiras linguísticas existentes.

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6 thoughts on “Albânia | A guardiã de Llogara

    • Miguel A. Gonçalves diz:

      Pelo que ouço, porque ainda não era nascido, a Albânia, deve ser o retrato do Portugal dos anos 70/80. É um país ainda com relativamente pouco turismo, mas com um grande potencial. É de aproveitar enquanto é um destino especialmente barato 😉

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      • O Miau do Leão diz:

        Mig, o destino já saiu da lista. 😊
        Em Agosto estarei lá. Vamos ficar entre Vlorë e Ksamil. Parece-me o trecho com as praias mais bonitas. Espero q a água não seja fria. Pareceu-me tudo muito barato.
        Vou seguir o seu plano.

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      • Miguel A. Gonçalves diz:

        Escolheram bem 🙂
        É um destino barato, sim e quanto ao local para a praia há várias baías a seguir a Vlorë (Drymades, Dhërmi, Himarë, Livadhi, Jalë, etc). Com carro alugado terão mais mobilidade para chegar aos locais com menos enchentes! Aconselho a irem a Ksamil, de facto as praias são de água bem clara e quente, mas talvez regressem algo desapontados, porque há muita gente para um curto areal! Qualquer coisa que possa ajudar mais, estão à vontade!

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